Não haviam tocado nos papéis

 

63 ROSTOS PERPLEXOS vieram chegando a noite inteira à capela 3 do São João Batista. Assinavam ritualmente a presença, detinham-se à cabeceira (as mulheres persignavam-se inspecionando a cara do morto), e apresentando os sentimentos a Soraya (alguns chamando-a de Sra. Franco de Melo), e a Irmã Letícia, dirigiam-se a mim.

  Ninguém entendia. Surpresos e emocionados, ninguém entendia. haviam-se espalhado notícias de desastre, de suicídio. Como? Faziam-se perguntas, exigiam detalhes, certos de que eu ocultava alguma coisa. Aos mais próximos contei a verdade.

 

      Os comentários, à luz velada do recinto, eram estes:

 

      D'Aquino, companheiro de banca –

      Estranho profissional, capaz de arrazoar durante vinte e mais horas e eclipsar-se três dias seguidos. Me confessou mais de uma vez a incapacidade de ser especialista em qualquer atividade. Agradavam-lhe aliás umas irreverências sobre a nossa profissão.

 

      Vilanova (agora radialista) –

   Dizer que há dois meses, se tanto, nos vimos na rua... Perdulário! Que fazes do teu imenso talento? provoquei-o. Ficou na dele, esboçando um sorriso especial.

 

        Desconhecido –

     – Professor Nestor? – Sim.   – Prazer, Major Colares. Ah, isto lhe afirmo: tivesse Arnóbio vivido uns dez anos mais e nos legaria uma bagagem literária respeitabilíssima. Dons não lhe escasseavam, nem cultura.  Afirmava-me e não há  muito:  – Tenho sido, meu amigo, até hoje um aprendiz. Chego à hora de um homem começar a escrever.

 

      Velho jornalista –

     O nosso Franco de Melo, como eu, pertencia a uma espécie hoje em extinção: os espíritos lógicos. A par, nele, de imaginação prodigiosa, sensibilidade de primeira. E sequer um livro! Verdade que a Família bem pode amanhã descobrir um manuscrito. Você é a pessoa, está intimado a publicá-lo, Nestor. Tu não achas, querida?

 

      Sua senhora –

     Oh,  sim.  Não morremos uma vez, morremos com aqueles que amamos e partem cada dia. Uma só coisa conforta: a querida lembrança deles.

 

      Um professor –

   Oxalá, Gilberto, tenha Arnóbio conhecido, pelo menos, os catorze dias de felicidade que, depois de reinar cinquenta anos, contou o califa de Córdoba...

 

      Gilberto, jovem estudante –

      Um aí me perguntou o que os da alta roda acharam da virada política do Dr. Arnóbio.  – Você que respondeu?  –Virada? não houve. Ele nunca escondeu o esquerdismo dele, ou como quiser chamar. Dr. Arnóbio era um homem legal, cara.

 

       Sr. Silva Xavier, meu vizinho –

      Ouça, bom Nestor. Assisti certa feita ao descarregamento de livros na calçada de um "sebo". O rapaz da camionete atirava-os ao chão como batatas de um saco. O mercador sorria, seguramente comprara aquilo por dois tostões. Lembro bem que nosso conterrâneo manifestou-me a nobre intenção de um dia doar o seu riquíssimo acervo à Faculdade de Santa Rita. Faça questão disso, Nestorzinho, vontade de morto é sagrada.

 

        O boêmio do Bar 7 – (ruidoso) –

      Meu ilustre Professor Castor! aquele abraço. Essa desgraça verde-amarela! eles não capiscavam, companheiro, o melhor dos artigos dele. E a ironia, hem? Que aliás camuflava o espírito sério que ele era, com todo respeito ao morto, que ar nobre! um artista de sua vida.

 

        – Não! Não! Gente, Arno se suicidar?!

     Em vermelho e negro a mulher investiu como um pé-de-vento:

      – Golpistas! E ainda vão chamar esse crime, mais esse, de acidente de percurso.

        Todos se haviam voltado.

      – Recebi  o  telefonema, saí correndo (aproximando-se de mim) E você, querido Nestor? deixar a mentira se espalhar?

    Dois  agentes  à  paisana abraçaram lado a lado a intempestiva, que levada esbravejava:

        – Vou botar isso no meu programa! Me larguem, seus tiras, vou...

         Alguém: Quem é?

     Jovenzinha:  Mas  não está conhecendo? Apresentadora Xaviera.

 

          A noite caminhava com lenteza.

     O mortiço das arandelas nos lambris fingindo velas; a fragrância forte das flores, a tampa do caixão verticalmente à parede; o ar morno no recinto; isto e aquilo entristece, enjoa, e mãos aos lábios disfarçam o tédio dos bocejos.

      Verdade que fraudulenta é a realidade, mesmo junto à morte. Insidiosa. Insidiosamente...

        O cafezinho quente no Bar interno; a cara despachada do garção; o cigarro do desconhecido de há dois minutos; aqui o burburinho dos diálogos amenos: o informe para o bom negócio, carro ou apartamento, o fato político, tudo vai ajudando a empurrar a obrigação piedosa e aborrecida.

       Porém lá pela madrugada éramos apenas sete: um morto sob pétalas; Soraya mal penteada de óculos escuros; Margarida sem pintura; Irmã Letícia de cabeça baixa; Seroa e eu estremunhados, e o chofer Uziel, composto e novo, solícito como na primeira hora.

         Aos poucos raiava o dia.

         Esvaziavam todas as florálias do Rio de Janeiro?

        Tristezas  bem-vestidas  chegavam com braçadas de rosas ou cravos em celofane. Coroas a manhã inteira. Dispostas nos cavaletes, exibiam em tarjas – ouro sobre negro  – os nomes dos ofertantes.

        Onze em ponto o padre entrou e fez as orações. Colocou-se à testa da carreta e processionais galgamos a encosta faiscante de carneiros caiados.

       À sombra do toldo, roldanas desenrolando devagar as tiras retesadas, baixaram o caixão, que pousou no fundo sem ruído.

         Discursos de ocasião a beira-túmulo.

       Os  presentes  enxugavam os rostos na manhã de outono que mais parecia abrasado dia de verão.

         Extramuros, da lonjura um eco indistinto soou: ô ô ôi...

       O  grupo  de amigos desfilou silencioso atirando punhados de cal. E ali deixamos Arnóbio Franco de Melo sob a placa de cimento, por cima uma pirâmide de flores.

 

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