43 ANO E MEIO é nada e é muito. Eu me afastara como bolsista para pesquisas históricas nos Estados Unidos, estava de volta.

        Quase inteiramente por fora, como se diz, da realidade que tanto me interessava. Margarida, empenhada em conhecer o país e em fazer os filhos dominar o inglês, contribuíra para me ambientar lá mais do que eu quisera. Fizéramos relações, viajáramos. Arno e Seroa, vivendo a hora política, tinham se esquecido um tanto de mim, as cartas raras e sumárias.

       Encontrava  na  presidência o vice João Goulart. Assumira com a renúncia de Jânio Quadros, em regime parlamentarista, e ultimamente um plebiscito lhe devolvera o pleno poder de mandatário.

       Desejei saber logo de tudo em detalhe. Principalmente que estória aquela de colaboração parcial dele com o atual governo de que laconicamente me falara em carta.

        – Acaba  de chegar.  Já saberás.  Que dizem lá pelos States de nós?

      – Estamos por baixo, Arno. Depois te ponho a par. Então, você embarcou nessa de engajamento político? É uma aventura...

     – Alto lá! Engajamento é termo forte. Colaboro com uns artigos em jornal.

      – Mas aquele insistente convite do Arézio de encontro seu com Jango...

      – Realizou-se.   Até  que  é conversa amena para quem chega, enquanto desembaraçam aí a bagagem.

 

        Acontecera – contou – no Palácio das Laranjeiras, onde o presidente se hospedava nas vindas de Brasília ao Rio. Um almoço por sinal às três da tarde bem divertido.

       – Divertido? Não foi, como dizem hoje os jornalistas, um encontro de trabalho?

      – Devia. Mas um quarto personagem, um centauro dos pampas...

          – Segurança?

     – Armado.   Não  nos  apresentaram. Ele é que foi estabelecendo conversa comigo. Biografou-se. Fora da juventude patrianovista. Aquilo sim, que era partido. Partido não, movimento nacional. O Arézio que ali estava era o "chefe", depois virara casaca. O acusado:  – Pedrito! – O quê, estou mentindo? – Ora, foram erros da mocidade... – Erro ou não, vestimos juntos a bonita camisa verde do sigma e demos anauê. Arezio, tu és mesmo trabalhista? O presidente, que se retardara atendendo a um Fulano que se colocara no caminho, aproximou-se da mesa, desculpando-se. O Jango é um homem simpático, cordialíssimo. Quis saber até particularidades de minha vida. Quando lhe falei que tinha uma filinha: Que tesouro! O Dr. Arézio já o informara de minhas capacidades. Eu podia sem dúvida ser útil ao governo dele. O maître serviu. E eu agradecia a gentileza do que dissera declarando-lhe que era apenas um intelectual, não esperasse muito de mim. O centauro, que acabava de ver a parcimônia de picanha no prato do presidente:  – Só isso, Jango? Política pede estômago forrado, que a jogada é bruta.

          – E o Presidente?

     – Riu, ele riu. Pôs-se  a dizer-me dos obstáculos que enfrentava a começar pela posse em regime parlamentarista, mas esperava conseguir o plebiscito para volta ao presidencialismo. Arézio acudiu com comentários otimistas, tudo estava em ele se rodear de colaboradores competentes, formar uma equipe definitiva. Por aí. O picanheiro intrometeu-se: Reformas! O que proletário quer é barriga cheia e futebol, meus sonhadores. Olhei de relance o presidente, enquanto Arézio amarrava a cara. Jango acudiu com um fraco: – Pedrito, qu'é isso?

          – Arno, vejo que ao tipo só faltavam o poncho e as botas.

          – Só. E o almoço, que não foi comprido, transcorreu nesse clima. Pudemos conferir alguns pontos ouvindo eu mais do que falando. Pois vi um presidente muito confiante em certos comandos militares, em forças sindicais, marítimos, movimentos estudantis, como se não estivesse no centro de grave crise. Frisou que, além de parlamentares dispunha de boa parcela de empresários progressistas e de militares nacionalistas. Acreditava acima de tudo no Povo. Na hora decisiva, o Povo Brasileiro havia de responder em massa ao chamado. Passou a justificar as afirmativas, e acabou com veemência me solicitando que eu escrevesse, que denunciasse a marcha da conspiração contra as liberdades e conquistas sociais. Arézio observou que isso podia ser na Última Hora onde não tocariam numa única vírgula minha. O maître veio dizer-lhe que o Sr. K. aguardava Sua Excelência ao telefone. Lá se foi o anfitrião puxando da perna, não se demorou, falou em compromisso urgentíssimo, engolimos nossos pudins e partimos.

       – Tanto você como o Arézio esperavam outra coisa, imagino.

      – Retornamos frustrados, ele mais que eu. No carro, calava. No escritório me chamou logo ao gabinete. Fiquei então sabendo que a tal peça era um aparentado dos Vargas. Quando Jango vindo da China após a renúncia de Jânio, consciente das resistências que existiam, retardara a volta passando primeiro pelos EUA na tentativa de dar satisfação aos que o acusavam  de comunista, o companheiro de infância e de Faculdade correra pra lá ao encontro do amigo, e aliado de primeira hora ficara fazendo parte do grupo de Jango.

        Arézio, que não é disso, ironizara:

     – Está sendo preciso despachá-lo oficial-de-chancelaria no Caribe...

    – Ah! Curto ou comprido eu devia estar nesse almoço histórico.

      – Histórico? Vê, meu bom historiador, como se passam os fatos na intimidade política. Sim, disse-me Arézio que notara Jango um tanto inquieto desta vez. Embora encontros com ele no Rio fossem assim mesmo, no Planalto não. Se eu consentisse em acompanhá-lo dali a quinze dias, veria. E desejou conhecer, sem rodeios, minha opinião sobre o amigo e suas teses. Transmiti-lhe a impressão positiva sobre a pessoa, gostou. Eu precisava conhecer o Jango na intimidade do Sítio do Capim Melado, em Jacarepaguá, num bom churrasco...

        – Um gozador da vida, esse Arézio.

      –  Esfriei o meu chefe porém quando, do político, observei que João Belchior Goulart tivera garra pra chegar lá, isso era óbvio, mas não o achava com estrutura pra se manter.

        – Assim franco?

      – Aí não gostou nada. Que o Goulart tinha carisma, isso o que importava, eu me equivocava. Não se zangou muito. E eu acrescentei que o problema maior dele era aliviar-se da carga pesada. – Que carga, tchê? Respondi-lhe que a dos baderneiros, provocadores e triunfalistas. Que só ele, o presidente, devia falar alto e bom som. Que o programa era manter-se no poder e preparar um sucessor seu, as reformas teriam que vir progressiva e gradualmente, e viriam.

          – Certo. Não assanhar a burguesia e não cair do cavalo.

         – Arézio me argumentou que Jango não podia agir assim, que ele fazia política naquelas áreas. Saí. Me excedera, deixei o chefe pensativo e eu decepcionado com a cegueira dos homens da política e leviandade. E aqui ouviste, Meu caro Nestor, o relatório que querias.

 

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Teu caminho é o romance

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