38 – TEU CAMINHO É O ROMANCE.

         –  Não tenho imaginação para enredos, Seroa.

       –  Enredos!  Esses  apanham-se  do chão, e quanto mais tênues, melhor. Trata-se de amarrar experiência e fantasia numa totalidade. Trabalho penoso? Escrever é batente.

         Viviam os dois amigos a deblaterar. Dizia Seroa que o fato de ter cometido um divertimento – Lilith & o Sr. Golem – e o primeiro capítulo do romance coletivo deles – Uma Mulher Pula a Própria Sombra – em nada o autorizava.

         Arno sabia-o grande ledor de ficção e gostava de provocá-lo. Era de vê-los, dois adolescentes eruditos. Conversavam conversa amena, acabavam se exaltando em discussão de alta temperatura.

 

      Arno:  O  romance  prolonga-se  ainda  no clima do psicológico. Mas a psicologia literária, quem não vê? tornou-se suspeita.

        Seroa: Suspeitíssima. Ninguém deseja reflexões, análises ruminantes, numa palavra, coro indutor. Quer sim presenças, dramatização, num regresso às coisas. Partir da circunstância, do homem em situação. Não é ele um projeto a realizar-se no aqui e agora? Nem cabe ao ficcionista sofrer com atropelos ao real, dele é a co-realidade, espaço dos possíveis.

      Arno:  Basta  um  fundo  psicológico inexpresso mas presente, e o bom texto, a boa palavra. Aliás estas têm que ser (riram de mim quando afirmei isso), têm que ser gargarejadas antes de engolir.

          Seroa: Ideia interessante, tinham porém que rir. Pensaram numa goela algo estreita... Claro, é o escultor a respeitar a resistência do material, de passo que sem desdenhar das técnicas do novo jornalismo, até da gráfica, do visual.

          Arno: Ôpa! Com a palavra o decano Nestor.

        Eu: Quem é ele, entre estetas! Bem, História e Política. A viragem é total em tudo, como se diz por aí, num avançar caótico. Dosadas, têm o seu lugarzinho no contexto, por que não? num apelo ao questionamento do Tempo. O escritor goza da admiração mas não detém o poder intelectual, são os poetas! na voz do burguês e do povo. Ficção, diversão, certo. Mas o entorno social e o pensamento devem ter voz. Não, meus caros, não é só falar em  Orfeu e Destino. Tenho dito.

         Aparecia Jovita com uma bandeja. Não deixava de dar ar de sua presença bem-humorada:

           – Isto não é para você, mulher... Altas filosofias!

        Arno:  Por  favor,  meu  bem, pede a Aninha pra fazer menos algazarra com as amigas.

      Seroa:  Principalmente  um  saudável  desdém  por teorizações, escolas e modas. São válidas todas as teorias? Sim e não, desde que se acerte no alvo. Sentar o ficcionista diante do teclado, esquecido delas, e ir em frente agarrando os fenômenos em carne e osso, criando pela imaginação com ostinato rigore.

            Eu: Falou, doutor!

          Arno:  Exato.  Padrão. Leveza. Acabar com isso de dizer tudo e qualquer coisa. Vazios para o bom leitor preencher. Por que não? trazê-lo para dentro do livro. 

       Triturando  o  pistache  trazido  pela dona de casa, saboreávamos nosso uísque, meu primo tirando baforadas de cachimbo.

             Seroa exaltava-se:  

        – Ao  jogo,  romancista  Arnóbio.  Faz  como na tua arquitetura de colunas, frisos e balanços. Mais a fantasia, que não negará serviços. Decola verticalmente pelo imaginário de olho no concreto e transgressor feliz. E as soluções se precipitarão, nem são buscadas, acham-se.

             Concluía:

         – O romance tem muito, muito espaço pela frente pra alcançar a forma acabada, quem não sabe? chegará lá.

            Arno: É como disse não sei quem – a nau capitânia da modernidade.

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 40/70

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