10 COMPANHEIROS, comparsas, cúmplices do primeiro cigarro, muitas vezes confidentes, eu uns anos mais velho, assim convivíamos, assim éramos.

       Meu pai,  irmão  de  Tio Justo, tombara numa tocaia. Participava no palanque de comício ao lado do candidato a governador. Este, a meio do discurso exaltava a Providência Divina, "desde o mais humilde grão de areia até a alma imortal do homem" (era um de seus chavões para se lavar da pecha de ateu), quando uma bala endereçada ao político atingiu meu pai. De uma hora pra outra o irmão mais novo, Tio Justo, que cursava o terceiro ano de Direito em São Paulo, tivera que se pôr à frente das Fazendas. – Tudo mudou.

           Minha mãe, depois da morte do marido, ficara sem saber o que fazer de si e dos três filhos. Era forte de ânimo mas quanto às coisas práticas dependera sempre por completo dele. Voltou para a casa dos pais, em Belo Horizonte, comigo e minhas duas irmãs. Eu, na cidade grande, sem a autoridade paterna, meti-me com o que a família chamava de "as péssimas companhias" Largara os livros. Contestava.

 

           Ali,  agora  Jorge  Vereador  era  o Deputado Menescal. Fizera curso de impostação de voz e oratória e tribuno brilhante tornara-se popular. Popular é dizer pouco, popularíssimo, por um motivo ou outro sempre nas colunas da imprensa. Abandonara-o a Doutora, com quem tinha um filho. Vivia com uma loura atrevida que lhe aprontava cenas na rua. Na primeira, o jornal da situação noticiou o escândalo fantasiando assalto para arrebato de cordão de ouro com medalinha religiosa; segunda vez, nova explicação: a seguir calava. Na imprensa alternativa era tema de charges. Aquilo não lhe fazia mossa, falem mal mas falem, nada a declarar.

           Empreendedor  à  custa  de  bancos  oficiais,  era  um cidadão bem- sucedido. A ira do nosso grupo transbordou quando ainda uma vez repetiu o troca-troca de legenda.

        Perorava nos comícios pelos tópicos da nova cartilha. Barbudo, em camisa: 

             – O  Governo revela  o homem, disse alguém. A política, já nela a sacrificar-se como missão, é bonita, digo eu. Eu, que por pensar primeiro no povo tenho comido sempre, senhores! da banda podre.

         Exponho-me nesta trincheira de lutas e canseiras para fazer o quê? Cobrança ao Poder por todos vocês. Pois bem, ataquem-me os adversários com calúnias e baldões, eu as esquecerei. Atirem-me pedras, eu as recolherei. Ufano para erguer com elas um pedestal de granito a nossa formosa Minas Gerais!

           Armados delas nos bolsos, aos berros de Hip, Hip, Hip, Hurra! lançamos nossos petardos num comício na Gameleira. A polícia agarrou um de nós. Foi um tumulto, era o que queríamos. Gritos, correrias, tiros pro alto. Metidos num camburão nos levaram para a Polícia Central. Lá, arrogante, desafiando o cassetete, invoquei a minha condição de neto do Desembargador Leoni e pela madrugada soltaram "os comunas baderneiros" como noticiaram os jornais.

           Lembro-me  uma  vez.  Eu  fora arrancar uns cruzeiros extras de meu avô no Tribunal Eleitoral. Quem topo? O Deputado Menescal – endomingado, escanhoado, anelão no dedo. Fez-me a maior festa. E presenciei, à sombra de togas e bigodes retorcidos de magistrados defuntos, este instrutivo diálogo:

             – Sr. Desembargador Leoni.

             – Sim, Deputado.

        – Política... Vou largá-la, me dedicar exclusivamente à empresa privada. Para isso me formei em Administração. Política brutaliza.

           – Meu  bom  Deputado  Menescal,  há  anos ouço V.Exª recitar tão formoso estribilho. Abundans cautela non nocet. Que eu traduziria: Esperteza demais come o dono.

             Rimos os três.

             Menescal ainda acrescentou: 

            – Certo, Mestre. Como diz o outro: o Poder é afrodisíaco.

            Meu avô: E artimanhas de administrar interesses...

 

       Dia   de   meu   aniversário  encontrei  debaixo  do travesseiro uma carta. Punha-me em brios.

         Nestorzinho,  pesa-me  dizer-te: o teu procedimento em Belo Horizonte é inqualificável. De dois meses a esta parte...

            Corri logo ao final: o avô cortava-me a mesada.

         Na  reunião  de  família, teimei em deixar a cidade e ir viver no Rio de Janeiro, lá eu voltaria aos estudos. Minha mãe se opôs, queria-me junto dela.

       – Aqui  não  fico!  Não  suporto  a presença desse homem.  Você não devia ter casado segunda vez! explodi.

             Minha mãe pôs-se a chorar.

           – Nestorzinho,  ofendes  tua  mãe,  interveio  meu avô. Quem sabe se devia casar ou não? Ela, e mais ninguém. Atenta que teu padrasto só tem um defeito, é ser um homem de bem.

          E  não  ofendi  apenas minha mãe, agredi a todos, me retirei a berrar como um maluco mas de alma lavada. Já andava com intenção, arrumara emprego de "lanterninha" no bairro Floresta e comecei no dia seguinte. Dormia nos fundos do cinema. Nas saídas à rua enterrava o boné na cara e cautelosamente evitando o Centro me achava seguro. Pensava em nada. Nas horas de folga aprendia flautim com o segundo bilheteiro. Agora me sentia livre, independente, homem feito! Que queria mais?

           Mas quem escapa ao olhar arguto de mulher? E se são duas mulheres? Vaga-lume dos outros, tentei disfarçar uma noite na penumbra. Minhas irmãs me reconheceram, correram a me denunciar.

              Vim pro Rio com pequena mesada.

        Morava, comendo de bandeja na Casa do Estudante, trabalhava à noite de revisor num jornal e era assíduo na Faculdade.

              Ali conheci o Sadhoc, um filho de salineiro de Cabo Frio. Sadhoc e eu, tínhamos a bela vita à nossa frente! Vinha me buscar na redação e nos espalhávamos pela Lapa na madrugada, cinemas na Cinelândia, penetras em teatros, barrados aqui e ali, tudo motivo de riso para os dois jovens sem compromissos.

            Quando   cansamos,   ia-se   todo  fim  de  semana  e feriadões, Sadhoc para Cabo Frio, e eu para Santa Rita. Na Arca encontrava tudo que podia desejar. Tio Justo, sempre igual, me queria; eu afinava com Ana Lídia, ali as coisas me adotavam, eu a elas.

 

 

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Beirava os doze anos

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