5  O TEMPO PASSA. Quando Arno grandote começou a andar pelos cantos com a filha do capataz da Arca, Ana Lídia enxergou logo um drama. Tio Justo nem ligara. Tacitamente até se divertiu, ora o frangote! cantando de galo.

     Naquela manhã o rádio, sintonizando no armário da copa, calhou Ana Lídia colher este retalho de idílio: 

 

                          Olho seco? Colírio Lux!

 

– Você é muito bonito.

– Você também é.

– Sabe que eu roo unha?

– Eu também.

 

                          duas gotinhas de Lux, num piscar d'olhos...

 

– Eu não gosto é de sua mãe.

– Por quê?

– Proibiu de eu conversar com você.

– É mesmo? Não liga.

 

                          dois olhos belos e brilhantes!

 

       – Não liga. Outro dia eu sonhei que estava beijando você.

– Então beija de verdade. Não, não, tem gente aí... Adeus.

 

      Ana Lídia tomou aquilo exageradamente a sério. Queria que Tio Justo mandasse a família para outra fazenda. Certos momentos meu Tio era peremptório. Encerrou o assunto ali:

      – Que culpa tinha ele, se começava admirado pelo belo sexo?

 

 

      Conhecia a arte de desmoralizar qualquer punição. Escapava de fino com inventivas e táticas a seu jeito.

     Pouco  aturava num castigo. Isolado entre quatro paredes? Não era problema para Arninho. Trepava no peitoril da janela, punha-se diante do mundo. Dobrava aviõezinhos de folhas arrancadas do caderno que iam aterrissar no gramado ao pé do relógio de sol. Passava o Uziel ou outro, retinha o passante a lhe devolver as aeronaves e a conversar.

      Logo, com um caniço faz-de-conta pescava peixes de mentira num rio imaginário... Cantarolava. Descia, pegava o Alice no País das Maravilhas, intrigava-se com a pequena Alice: "– Está aí, já vi muitos gatos sem sorriso. Mas sorriso sem gato! É a coisa mais curiosa que já vi na minha vida." Lembrava o pedaço de pau que vira mergulhado no tanque d'água e que parecia quebrado. Ah, a vida era cheia de porção de coisas que a gente não entendia!.

     Mas enjoava de livros e estirado no chão entregava-se ao que ele e Letícia chamava "fazer cineminha": fechados os olhos, assistir ao espetáculo do fluir rápido de imagens. Neste brinquedo, adormecia.

 

 

    Tarde, mais tarde, se honraria Arno de ser um precursor do palavrão. Na verdade bem inocentes para o que viria depois.

      Não assim para Ana Lídia naquele tempo.

     – Meu Deus, dai-me paciência! este garoto não toma jeito. É um avoado, deita e rola. 

      Tio Justo: A culpa não é dele... É o  diabo que o cutuca.

      – Agora até deu pra desleixado.

      – Coisa da adolescência.

      – Você está vendo só, Nestor?

      – De fato. Tio Justo às vezes...

      – Você é outro. Ele precisa é ser mandado pra Marinha.

      Tio Justo: Grumete?

      – Grumete, sim. Esfregar convés de navio e picar ferrugem.

      Nessas e noutras, eu e meu Tio ríamos.

     – Olha só o sobrinho do Cônego Brasil. Endireitou. Ou então interná-lo nos Salesianos.

       Tio Justo: Barbaridade!

       Eu: Nada. Ele fugia no fim da primeira semana...

       Ana Lídia lábios apertados

     O herói ouvia mudo as possíveis avenidas e veredas de seu destino, careteava.

       – Vocês levam tudo pra galhofa, isso é muito sério.

   Maiores clamores quando Arninho – e acontecia quase diariamente – queria montar a cavalo, o seu rosilho Pitão. Como, estabanado, caía uma ou outra vez, a mãe achava a cada vez que o filho ia se matar.

 

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Era o temperamento da mãe

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