V

F U G A S

C A R N A V A L

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   Também aí desaguam os cantos e as melodias de todo o povo do Brasil.

 

                            Graça Aranha, In A Viagem Maravilhosa.

 

A aurora queria romper das águas. Mas quem ia prestar atenção à aurora, ali, no hall da estação das barcas Rio-Niterói, às três da madrugada, numa quarta-feira de cinzas?

    Exaustos, moídos, arrasados pelo cansaço de três dias de Momo, os últimos foliões, derreavam-se pelos bancos. E como estes eram poucos, muitos estiravam-se pelo ladrilho, junto às paredes, fardos humanos de perdida dignidade…

    Aqui uma baiana, esquecida de seus balangandãs, boca entreaberta, dormia sobre o peito de um legionário amolentado; ali um “sujo” com máscara de burro roncava incógnito; mais adiante jovem princesa do Oriente, de maquillage desfeita, cabeça apoiada nos braços, cochilava sem donaire nem mistério. E pelo chão coberto de confetes e serpentinas, numa desordem de cuícas, pandeiros, reco-recos, pernas e ventre pilosos de marmanjos em sainha confundiam-se com coxas verdadeiras de falsas havaianas e níveos seios adolescentes que ninguém queria ver…

    Alguém, de pé, esquadrinhando a baía, num bocejo:

    – Parece que lá vem a barca…

    – Qual o quê, mano, barca só às quatro! Ainda temos de gramar quase uma hora, comentou outro, molemente.

   Um cheiro de éter e bodum errava pelo ar. Tédio de fim de festa… Tédio que a luz mortiça das lâmpadas, chapando manchas amarelentas nos rostos, ainda agravava. Mas atentando-se bem, havia certa beleza naquela orgia de formas e de cores, tarlatanas e organdis, ondulações de tafetá e cetim, lantejoulas, guizos, realezas de latão e ouropel – sugestão plástica que qualquer pintor amaria surpreender e transpor para um quadro.

 

SÚBITO, músicos exímios, entram pelo recinto a dentro dois apaches mulatos, um a tocar pistão, e outro trombone de vara. A pleno pulmões, atroam o ar com a música da marchinha de sucesso:

“Maior é Deus do céu

e nada mais,

ai, ai, ai, ai!

 

    Eis que um folião levanta a cabeça. E logo outro se ergue, e mais outro, e outro… Daí a nada, estão os dois músicos fechados num círculo de curiosos.

     – Vamos sambar, gente! Vamos sambar!

     Desnecessário o convite. Já o canto acordava nas gargantas, já pernas e quadris subitamente despertos, pediam ritmo. Adeus cansaço, adeus sono! O pistão e o trombone ateiam de novo a chama que se ia apagando… Vozes enchem o recinto, improvisa-se pequeno carnaval:

 

“Maior é Deus do céu

e nada mais. ai, ai, ai, ai!

A felicidade neste mundo

é muito grande,

por isso ele na terra

não volta mais

                                “Maior é Deus do céu…”

 

    E quando a barca chega, é um “bloco” que a toma de assalto. Pandeiros acompanham com um rendado de sons, reco recos arranham, cuícas fazem o fundo soturno com um ronco cavernoso, monótono. E sapateia-se, requebra-se, a berrar num furor diabólico, num frenezi. O pistão e o trombone comandam:

 

“Maior é Deus do céu

e nada mais. ai, ai, ai, ai!

A felicidade neste mundo

é muito grande,

por isso ele na terra

não volta mais

                                “Maior é Deus do céu…”

 

II

 

Quem somos nós,

que vivemos

entre o mal e o bem?

Deus é maior.

bem maior

do que ninguém.

    “Bem maior”...

 

AGORA –  espetáculo cotidiano, eternamente inédito –  a aurora nascia. Lento e lento, no horizonte próximo, por detrás das montanhas, um halo prateado ia crescendo na curva azul do céu sem nuvens. Ia crescendo e esparzindo uma claridade a princípio tímida, logo radiosa, ofuscante, triunfal. E enquanto a aurora inundava a terra de sua luz, a barca, alva gaivota, singrava as águas serena, balouçante, à carícia da brisa matinal, levando aquela loucura de vozes, de sons, de movimentos:

 

“Maior é Deus do céu

e nada mais. ai, ai, ai, ai!

A felicidade neste mundo

é muito grande,

por isso ele na terra

não volta mais

                                “Maior é Deus do céu…”

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