A N Ú N C I O S

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   Se havia uma coisa que me dava prazer em pequeno era interpretar as figuras que a umidade desenhava na parede de um muro ou de alguma velha casa.

                        Eugenio Gomes, In Espelho contra Espelho.

 

CONFESSO: sou ledor inveterado de anúncios. E faço esta confissão sem constrangimento. Isto porque estou convencido de que anúncios são feitos para serem lidos e circunstâncias há em que são a única forma de matar o tempo – numa viagem de bonde, de cinquenta minutos, por exemplo, depois de lido o jornal e examinadas as nucas da frente e as caras do lado; que outra coisa menos indigna fazer, digam-me lá?

    Ora eu a justificar-me, quase envergonhado. Talvez vocês, assim graves e sérios, não leiam anúncios, mas percam-se nas historietas em quadrinhos do “Gibi” e do “X-9” – que é tudo a mesma coisa. Alto e bom som repito: sou ledor inveterado de anúncios.

 

QUE prazer maior que ir distraído e, de repente, dar com isto:

PÉROLAS CULTIVADAS

Leonard Rosenthal

 

    Pérolas cultivadas… Maravilhoso encontro de palavras. Abundância de vogais, arabescos de ss finais, ritmo, sugestão poética, que mais falta aí? Isto podia ser dito à Bem-Amada: “És uma pérola cultivada, anjo meu!” Pérolas cultivadas… Que é feito dos poetas, onde estão eles que não fazem esta trouvaille?

    Olhem aquela loura de olhos cerúleos, busto erguido de dama da Renascença, decote atrevido, como fala a vocês sorrindo divinamente para a vida. Julieta, Beatriz, Margarida… Ponhamos Sulamita. A amada bíblica não inspirou versos mais apaixonados. Doce é repeti-los, o pensamento no azul:

 

“Agora é apenas verdade

O que antes era poesia:

“A tua boca de sol”.

Olha só que claridade

que beleza, que alegria,

na boca exalando ODOL!

“A tua boca de sol…”

 

     Por falar em versos, o que não daria qualquer mortal para ser autor, anônimo embora, desta joia antológica, perfeita como um gazel de Hafiz ou um Rubaiyat de Khayyam, eterna enquanto durar a língua portuguesa:

 

“Veja, ilustre passageiro,

o belo tipo faceiro

que o senhor tem a seu lado.

E, no entanto, acredite,

quase morreu de bronquite,

salvou-o o RHUM CREOSOTADO!”

 

    Este não tem ilustração. Para que, se as palavras aí falam como imagens, e que eloquentes imagens! Faz-lhe digna parelha, pela métrica e rima impecáveis, aquela outra joia, não menos preciosa:

 

“Moça garrida e bonita,

você tem tudo na vida,

você tem tudo o que quer.

Mas prepare o seu futuro,

faça logo o seu seguro

com a SAÚDE DA MULHER”

 

 

   Já aquele rosto, mal libertando-se da faixa que duas mãos violentas para trás, tentando amordaçar-lhe os lábios, aquele rosto desvairado de angústia sempre me perturbou. Mas de uma vez já me visitou em sonho. E seja a semelhança de apresentação gráfica, seja o paralelismo de sentido, evocam-me aqueles versos imortais em que se diz que “a alma humana busca os largos horizontes e tem marés de fel como um sinistro mar”. Vejam se não é mesmo um doloroso desabafo dostoievskiano atirado para o céu, arremessado para o infinito:

 

“Larga-me, deixa-me gritar:

Xarope São João é bom!”    

      E outros e outros… E o homem da Emulsão de Scott, com o bacalhau enorme às costas – evocando fjords da Noruega, vagas encapeladas, rostos de velhos lobos do mar, e associando-se inesperadamente às nossas ideias, interferindo não raras vezes em sonhos – o homem do bacalhau às costas, que não sabemos para onde vai, mas sabemos que vem dos dias de nossa infância, dos primeiros passeios de bonde, de manhãs ou tardes afogadas nas águas do nunca-mais!

 

É assim variada e pitoresca a viagem no mundo dos anúncios. Além – evidente –  além de ilustrar.

 

    –  Qual o melhor remédio para bronquite?

    –  Rhum Creosotado.

    –  E o melhor xarope para tosse de menino ?

    –  O São João, minha senhora.

 

       Num teste:

    

     –  Quantas espécies há de pérolas?

     –  Duas.

     –  Cite-as.

     –  Verdadeiras e cultivadas.

 

     Agora me digam: um perfeito cavalheiro não deve saber tudo? E mais: não é supinamente honroso funcionar sempre cem por cento, tal qual o nosso colega de trabalho, o nosso amigo, a nossa vizinha loura, em suma, como toda a gente? Erudição de anúncios à semelhança da cultura de almanaque? Que importa? Eis aí um preconceito. Atingimos ou não, respondam-me, a idade de ouro democrática?

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