DONA  CANDINHA

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                  Há madrugadas dentro de um ovo.

 

                              Antonio Torres, In Prós e Contras.

 

FUI hoje à casa de dona Candinha. Não faço mistério: a pessoa deste nome é uma das mais populares cartomantes da zona norte. Fui hoje à sua casa, numa travessa em Todos-os-Santos, por indicação de uma colega do Ministério, e lá voltarei muitas vezes. Muitas vezes? Já agora não darei passo na vida, não empreenderei negócio ou viagem sem a audiência de Dona Candinha. Formidável.

 

ANDEI com sorte. Talvez devido à hora ou à conta da chuva, só encontrei duas pessoas à espera: uma senhora e um velhote.

    – O senhor tem que esperar um instantinho. Faça favor, entre aqui para a saleta.

    Falava-me um rosto bonito de mocinha, em que adivinhei logo a irmã mais nova da pitonisa, e que depois compreendi ser a filha mais velha.

    Mal me sentei, saía a terceira cliente. Ligeiro, como se tivesse pressa em aquilo saber que lhe revelaria o destino, o velhote, aspecto de homem de negócios, comerciais ou políticos, mergulhou na porta dos Sancta Sanctorum.

    Fiquei mais a senhora, monumental loura de toilette preta e muita joia, dona do Cadillac parado à porta. Que problemas trariam ali aquela mulher? Estava disposto a puxar conversa, mas a loura absorvia-se na leitura de uma revista, muito tranquila, como se dali a cinco minutos não fosse realizar o magno encontro. Uma habituée. A falta de melhor passatempo, aventurei-me numa viagem ao redor da saleta.

     Acima da bandeira da porta que levava ao recinto da pitonisa havia a dupla Cosme-Damião, alumiada por lâmpadas elétricas em forma de chama, entre flores de papel, que as moscas não haviam respeitado. Deixei os gêmeos para me perder nas alvuras alpinas da folhinha “oferta do Armazém Turuna, de Pinhão & Oliveira, à sua freguesia”. Mais interessante era a parede à direita. Aquela mulher, testa curta onde um “pega rapaz” lhe dá expressão a um tempo finória e ingênua, é a dona da casa. Fazendo pendant, ali está o marido. Que fatalidade. Autêntico marido de adivinha. Na farda caqui de oficial de polícia, fisionomia desbotada, tem exatamente o ar que, na opinião do povo, adquirem as fotografias dos que se foram para o além.

     O tempo passava. O velhote, parece, tinha sérios obstáculos. Afinal surgiu, certo jeito de pessoa feliz, no fundo algo encabulado. Entrou a loura, que não se demorou menos, mas partiu francamente satisfeita:

     – Bebeto! Chamem o chofer! Adeusinho!

 

ENTREI. Um defumador ardia sobre a mesa. Não enganava o retrato, era a mesma pessoa, apenas mais velha: quarenta anos, gorda e clara, doce de gestos e palavras, algo exótica no peignoir estampado.

    – Boa tarde, meu senhor. Sente-se, esteja à sua vontade.

    Tomei lugar em frente à mesa. Ela sentou-se numa banqueta, do outro lado. E espetando-me uns olhos de alfinete:

    – Veio aqui por simples curiosidade, pois não?

    A observação apanhava-me tão desprevenido que não ousei mentir.

    – Em parte, minha senhora.

    – Bem, vai acabar acreditando. Como é a sua graça, por favor?

    Declinei-lhe o nome; anotou numa folha onde havia outros, numa caligrafia de colegial, e, tomando as cartas, pôs-se a baralhá-las com uma habilidade de fazer gosto.

    – Corte, por favor. Não, não, com a mão esquerda. Assim, obrigado. Os gêmeozinhos vão lhe proteger, vai ver, dizia, ao mesmo tempo que dispunha as cartas. 

    – São Cosme e Damião?

    – Sim, Cosme e Damião. Agora concentre-se, por favor. É para estabelecer a corrente… O senhor é casado.

    – Noivo, minha senhora.

    – Pois é, noivo, mas está tão próximo o casamento que já se pode considerar casado… Sua noiva é morena, muito bonita, e está apaixonada pelo senhor. Pequenas brigas… coisas de somenos. Aliás sua vida está em esplendoroso progresso.

     – Mas…

    – As dificuldades do momento vão-se resolver. Por si mesmas… Há uma pessoa que… sim, que lhe quer prejudicar…

    – Não é possível, minha senhora. Não sei de ninguém.

    – Isto é que o senhor pensa. Está aqui. Há, e é mulher. Loura.

    – Loura? Só se é alguma antiga namorada.

    – Justamente, uma antiga namorada. Olhe aqui a carta. Ela está enciumada pelo casamento. Não receba nenhum presente dessa pessoa, corte as relações e aviso de tudo a sua noiva. É uma mulher terrível… Também vai sair de repente de seu caminho. Ou por outra, o senhor, o senhor é que vai em breve mudar de ambiente.

     –?!

    – É, está aqui. Uma viagem à Europa.

    – Uma viagem? À Europa?

    – As cartas não mentem. Uma viagem à Europa, no fim deste ano ou no começo do outro. Vá de avião, que águas não lhe são benfazejas.

    – Mas…

    – Não tem mas. Dinheiro? Não é obstáculo, no caso. Olhe aqui, o senhor vai ganhar muito, mas muito dinheiro. Vai tirar a sorte grande.

    – Eu?

    – O senhor. Está aqui, as cartas não mentem. Costuma comprar bilhetes? Bem, compre sempre números terminados em 3, 6 e 9. Dou-lhe os parabéns, o senhor tem uma ótima estrela.

    – E que devo fazer para conservá-la, minha senhora?

    – Já lhe ia falar. Acenda uma vela aos gêmeozinhos, toda a primeira sexta-feira de nove meses seguidos.

    Ergui-me.

    – Quanto lhe devo? minha senhora?

    – O preço é de dez cruzeiros. Dê o que julgar.

    Não lhe paguei dez, mas cinquenta cruzeiros. E não estou arrependido. Ofereceria mil, se os tivesse à mão. Ora, de que valem cruzeiros diante de alguém que nos dá tão bons conselhos, que nos descortina tão belas perspectivas, viagens, sorte grande, ante alguém, enfim, que nos entorna sobre a cabeça a cornucópia de tantas esperanças, num banho lustral de felicidade?

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