MANHÃ  NA  ILHA

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      Levo para essa região, tantas vezes visitada, uma alma nova.

 

                           Adelino Magalhães, In A hora veloz.

MAR encapelado, a barca atraca num solavanco. O flutuante é uma gangorra. Há gritos e risos dos passageiros, algazarra. Levanto-me. O que! Chegamos ? Diabo. Não era isto o que eu queria. Malditos suplementos literários. Lendo-os, pouco ou nada ganhei; entretanto, lá se foi a viagem… E a manhã de domingo tão clara, manhã que De Chirico poria num quadro, tão azul o céu e verde o mar!

    Esses pequenos burgueses e seus piqueniques… Tão pacíficos, como ficam agressivos na disputa de lugares para a prole nas conduções. Devo apressar-me, senão perco o ônibus. E, no trajeto para a casa de meu amigo, quero recuperar o tempo e a viagem perdidos, quero a paisagem.

"-LOTADO. Vam'bora! adverte a voz adolescente do trocador. O chofer atira longe o cigarro, dá um toque no boné – e o carro parte.

    O carro parte circulando a pequena praça das barcas. E, como num filme natural, os aspectos já conhecidos, mas sempre curiosos, vêm desenrolar-se um a um a meus olhos. O bar, a banca de jornais e, ao fundo, os carnavalescos cartazes do “Cine Governador” anunciando para hoje uma película nacional… Sobretudo não esquecer a nota humana: lá vão, ativas, solícitas matronas atravessando a praça acompanhadas de esguias mulatinhas com grandes bolsas de compras. Garotada. Homens conversando, cigarro ao canto da boca e mãos nos bolsos, evidentemente a gozar a doce manhã da ilha…

    Rua Paranapuam, que eu não sei o que quer dizer. Velhas fachadas, datas antigas, varandas, bougainvilles e acácias, ouro e brasas: estamos nos trópicos! É verdade, a casa verde com jardim, onde… Mais adiante. Ali está, ali estão as castas filhas das ilhas. Bom dia, rosas de minha devoção! Obrigado pela vossa presença. Já vos esperava, já contava que não havíeis de faltar. Ah, a tentação de colher-vos, virgens impossíveis! Até logo, até breve!

      Agora o itinerário abre-se num alvo sorriso, ininterrupto: Praia do Zumbi, Praia das Pitangueiras, Praia da Bandeira, Praia da Olaria. E o espetáculo dos coqueiros. Eh, naturalista, não deixar de notar: é a vegetação característica da ilha. Ei-los que vêm alinhar-se às margens da praia numa constância regular, simétrica, dir-se-ia intencional. Um, dois. Um, dois, três.  Um, dois, três, quatro… Uns são verticais, perfeitos; há outros retorcidos, alguns tombados para o mar. Que contraste com a empoeirada arborização da cidade! Livres, desafogados, os coqueiros da ilha, da “minha” ilha ! O vento passa por eles arrancando da coroa de suas palmas suave música marinha. Aquela mesma harmonia que ressoa nas lapas, nos búzios, que canta ao ouvido dos pescadores…

       Os pescadores. Ei-los, camisas listradas, arregaçadas, a vender o pescado entre as suas canoas vermelhas e verdes, azuis e brancas, de nomes líricos ou irônicos. Os pescadores. Sob estes verdes coqueiros rumorejantes, sentam-se eles às tardes a consertar tarrafas e redes, impregnadas de salsugem, calados. De quando em quando atravessam a estrada para uma chegada ao “Botequim dos marujos”. “– Quanto chega, “seu” Zé?”  “– Cinquenta centavos, patrãozinho, que o cobre hoje tá curto”. Depois, quando a noite cai, fazem-se ao mar para a árdua tarefa. E manhãzinha, sob as mesmas estrelas que o viram partir, lá vêm contentes ou aborrecidos, embora sempre silenciosos, pois o mar ensinou-lhes a inutilidade das palavras; vêm contentes ou aborrecidos conforme a canoa está leve ou pesada… Nas fronteiras deste pequeno mundo nascem, fazem-se homens, amam e iniciam os filhos no mesmo humilde ganha-pão. Às vezes morrem em terra, as mais das vezes, porém, desaparecidos no mar, no mar de que viveram… Os pescadores. Por toda a parte são sempre os mesmos homens bíblicos, de pele crestada, afeitos à tempestade, curiosas tatuagens pelos braços e ombros… Imagino entretanto que serão felizes. Eles não ignoram que há no mar uma coisa chamada âmbar. E no fundo do coração, secretamente, cada um talvez sonhe descobrir algum dia uma montanha do esquivo tesouro, boiando à flor das águas. Irão pobres e tornarão ricos. Como toda a gente, felizes a seu modo.

 

QUE é isto? Meu Deus, o chofer está doido varrido! Buzinando desesperado, o ônibus voa, deixando para trás uma nuvem de pó. “– É pra fazer o horário, não carece ter susto”, avisa o trocador aos rostos apreensivos.

    Ainda bem! Uma curva, uma reta livre – e chegamos. Freguesia. O olhar de meu amigo descobre-me primeiro, salto sob o seu abraço no largo da matriz.

    Passam adolescências em flor em breves trajes de banho… Lá vai um garoto de caniço ao ombro, feliz com a sua enfiada de peixes – cor de ouro, cor de ouro, linda como uma oferenda…

   Não, não há nada melhor que um passeio matinal à ilha, a “minha” ilha, por um tempo assim, de dezembro ou janeiro!

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