20 FREQUENTÁVAMOS – ele, eu e Seroa – um grêmio literário.

        As reuniões aconteciam sábado à tarde, dispersavam-se ao amanhecer. Não faltávamos a uma única reunião, logo nos apelidaram de Os Três Mosqueteiros.

      Quem  era  quem  ali?  Ninguém. Novas da comunidade literária. Prêmio recebido. Notícia de um próximo lançamento. Aquele viajou à Europa, este vai aos Estados Unidos. Obra em progresso anunciada com augúrios de obra-prima. Dedicatória aposta no livro acabado de sair. No vindouro sábado Sicrano leria capítulo inicial de suas memórias.

        Acontecera que num domingo de fins de setembro, manhã de sol carioca, fomos os três visitar o túmulo de Machado de Assis num aniversário de sua morte. Já partíamos, depois de pousar umas rosas no jazigo de Machado-Carolina, quando surgiu de repente pela aleia do São João Batista um tropel de visitantes.

     Visualizamos  na  distância  um grupo de conhecidos, escritores, um mercador de livros, algumas jovens. Alguém nos apresentou àquele senhor de blêizer marrom, misto de diretor de faculdade e monge tibetano – líder do grupo,  o Bibliófilo.

         Tornamos ao túmulo com eles.

      O  Bibliófilo  biografou  o  menino pobre Joaquim Maria, precisou fatos e datas. Minuto de silêncio cronometrado em homenagem ao Mestre. Comentários. Fotos.

          Assim nos ligamos àquele grêmio da Zona Sul.

 

          Falas. Frases de espírito. Amenidades e urbanidade.

        Somente  o velho  irmão  do professor Rangel, que havia anos renunciara a falar porque as palavras, todas as palavras, pareciam-lhe insuficientes e toscas para expressar sentimentos e pensamentos, mantinha-se à parte. Calava, e sorria.

      Apenas  o  Uchôa  quebrava um pouco o ritual. Um carregador trazia a porção de novidades, nacionais e estrangeiras. O mercador de livros calava respeitoso enquanto num enxame os presentes se amontoavam em torno.

         Seroa  de  pronto  se  salientou na pequena sociedade. Passou mesmo a ser considerado quando distribuiu exemplares de sua recente novela Lilith & o Sr. Golem. Na lenda cabalística de Adão e Eva, a mulher Lilith exige do marido "direitos iguais para criaturas iguais". Esta primeira rixa no Jardim, transposta para casal de apartamento, é no texto pretexto para invenções e colisões de saborosas ambiguidades. Cada final, um capitulozinho de comédia, outro de tragédia, um terceiro de tragédia-comédia, ad libitum do leitor.

          Havia começado por achar o título estranho, porém todos acabaram gostando da ficção do novo confrade. Um exagerado: Obra-prima, sem favor!

      Quando  o  grêmio  perfez  dez  anos veio a solene comemoração.

         Entrevistas.  Artigos.  Telegramas.  Almoço. No almoço, uma coisa proibida peremptoriamente: discursos. Arno foi escalado para o brinde. O Bibliófilo exigia, e os demais confrades, saudação em verso, quanto mais clássico, melhor, soneto ou ode. Arno arregaçou as mangas.

           Ultimamente um casal californiano comparecia sem falhar um sábado às reuniões. Jovens, comunicativos, falando fluentemente nossa língua, pediram licença para bancar o custo do banquete no Roda Viva. Gentileza, retribuição deles pela democrática acolhida dos cariocas, ok? Bateram fotos de todo o mundo, de todos os ângulos, aos grupos, isolados, antes, durante e depois. Os brasileiros eram muito simpáticos, ok! tudo festa.

           Arno dizia bem –

 

    Em bordalesas de carvalho

na sombra de evaporadas adegas

               os vinhos

– esmagadas vindimas –

à feição decantaram

         silenciosamente.

 

    Evoé! Evoé, Dionisos!

Transbordem agora nossas taças.

Com o Mestre cordial à cabeceira

degustamos, gratos aos deuses,

a alegria tim-tim dos que se dão

         às belas-letras.

 

    Perdão, confrades!

se digo: Rasguem-se as mil Atas

destes dez anos em ascensão,

que as de hoje bem resume todas.

Quem a escreveu? Quem a lerá? – E ela

            Moussia Eloá!

 

           Ovações. Palmas. E novas palmas unânimes.

 

           Porém Arno com o tempo se afastou, inventava trabalhos.

       Eu  e  Seroa,  sem  ele, fomos também rareando nas reuniões, acabamos perdendo o interesse. É que o Arno achara sempre aquele grupo alienado dos acontecimentos políticos, acomodado e mais que acomodado. Aquilo não era atitude de pessoas que, pela cultura e posição social, antes deviam ser participativas, fazer alguma coisa, contribuir. Sobrevinham ultimamente uns sobre outros os fatos mais graves no País e o sodalício – assim era para chamá-lo o sodalício nem estava aí.

       Um  belo  dia  redigira argumentado protesto para ser divulgado em jornal a propósito de gritante arbitrariedade da Ditadura. Fora eu, Seroa e o personagem mudo, ninguém se mexeu para assinar.

          O denominador comum ali era o professor Rangel, sempre vestidíssimo.

          Notando o bom gremista a decepção de Arno, tomando-o pelo braço levara-o a uma palavrinha. Muito, muito de aplaudir iniciativas tais. Todavia afirmava ao jovem idealista, que inócuas. Quão longe, meu jovem, iam os bons tempos! Modernismos, vanguardismos... Melhor se dissera, tempos absurdos, e foi por aí.

       Escutara calado. Voltou indignado para casa e rasgou o escrito.

      Dias depois, escrevia uma carta, argumentada embora amiga.

       Louvava   o  culto  do convívio civilizado  das  letras, agradecia as horas fruídas entre refrescos e mães-bentas servidos na vasta sala de estantes e douradas encadernações, a oportunidade de uma e outra pesquisa feita ali, e declarava que ia sentir saudades, etc., etc., mas da data em diante, desligava-se. O gesto morreu no beletrismo da agremiação neutra.

         Partira o casal californiano para São Paulo. Uchôa lançara no almoço do Roda Viva depois do undécimo chope: – Ilustres, esses dois bonitinhos a fotografar, não estarão nos fotografando? Não me chamo Raimundo Uchôa ou são uns cagüetes da C.I.A.

           Eram, descobriu-se mais tarde.

 

 

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Pensão Monlevade

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