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Quando se viu em seu cubículo, longe do bulício atordoante da viagem, dos colegas, atirou-se na cama por arrumar, numa apatia invencível, e ficou assim algum tempo, esforçando-se por fazer calar, dentro de si, aquele tumulto de emoções que brotavam agora do fundo de seu espírito como uma vegetação mágica.

        Pelas janelas entrava o ar sujo de cinza da manhã e seus olhos viam involuntariamente a extremidade cônica dos eucaliptos com os brotos novos, de um verde frágil, balançando de leve à distância.

     Ia aos poucos se sentindo mais calmo e aquelas impressões exteriores distraiam-no de sua inquietação.

          Observava como era constante, rítmico, o movimento dos galhos a cada vez que a viração soprava; acompanhava aquele vai-e-vem lento, lento e ficava esperando, distraído, que eles atingissem a distância da vez anterior.

           Atingiam, e voltavam de novo. Assim uma vez, duas, muitas vezes.

      A  imaginação  divagava…  Devia ser aquela, pensava ele, a geometria do ritmo, o segredo da música. Da música… E a seus ouvidos chegava também a melodia distante de um harmônio.

        Era  algum  colega,  apaixonado  da  música,  que aproveitava o tempo e estaria no coro da capela a exercitar-se.

         Pelo   ritmo,  adivinhava  a  letra. Tocavam  o  Tantum ergo  das grandes solenidades.

       Mas a  execução  era  perfeita, ininterrupta. Não  poderia  ser qualquer um! Talvez fosse o Alfredo, só ele, ou então Padre Tobias… Era ele! a sua imaginação queria que fosse Padre Tobias… O Tantum ergo continuava. Agora ele tinha a impressão de que os sons estavam mais perto, que se haviam aproximado.

         A música! Estava naquele momento a compreender claramente o alcance do conselho de Padre Tobias no ano anterior: “volte-se para a música, meu amigo, volte-se para ela!” Realmente, era de música que precisava para seu espírito, para a aspereza de sua inóspita paisagem interior, sentia-o agora!

          “Como  a   música  me dá a impressão do vago, do indefinível de meus tumultos emocionais! Nesta hora em que me sinto tão longe de todos e de tudo, e tão perto de mim! que apaziguamento sem nome, abandonar-me à sua misteriosa influência, que doçura de êxtase!”

      Insensivelmente pôs-se a trautear em surdina a harmonia que chegava até ele.

          E sob aquele amolecimento de todas as energias deixou-se ficar – esquecido e parado – num distante desejo de estar assim in-de-fi-ni-da-men-te.

      O bruhaha das vozes de alguns colegas, no pátio, veio porém, arrancá-lo bruscamente deste devaneio.

        Estremeceu, esboçando um leve sorriso. Era uma alusão àqueles momentos, pensou, em que muitas vezes o surpreendiam, que os colegas o chamavam de “poeta”, de “sonhador”... Sonhador, ele! Porque?

“Quem mais do que eu, com minhas preocupações e minhas lutas espirituais, meus desânimos e meus súbitos entusiasmos, – quem viverá, mais do que eu, dentro da vida real? O tempo místico… A realidade… Que será a realidade?”

      Seus pensamentos iam-no arrastando de novo para o estado de espírito em que se sentira ao entrar no cubículo.

      “Como  ultimamente  a  religião me tem parecido triste!” pensou “Aonde me levará, no futuro, este sentimento? Porque será que a vida de comunidade, os estudos, o conhecimento de minha vocação, tudo isso enfim, que constitui o Seminário, já não me entusiasma, ou mais exato, já não me enche como em outros tempos o coração? Não tenho que justificar cada coisa, e não é afinal com violência sobre mim mesmo que as acabo aceitando? Que as acabo aceitando… Mas interiormente, será que interiormente a minha natureza as está aceitando? É horrível a consciência disto!”

          Por uns instantes, deixou-se prender com o olhar perdido para fora, pensativo e ausente.

       De súbito, como se aquilo estivesse há muito elaborado em sua consciência, apenas vigiando o momento propício à revelação, dominou-o uma volúpia de invadir terrenos em que nunca tivera coragem de pisar, de abrir velhas janelas fechadas, de se dizer coisas que, com um imenso receio, procurava sempre evitar.

         “É inútil  –  segredava-lhe  aquela coisa, desenvolvendo-se dentro dele como uma verdade independente – é inútil fugires à tua realidade profunda e viva, atordoando-te exteriormente! Procuras esquecer? Esquecer! Mas não vês que os motivos estão dentro de ti, vivos como brasas, e vão contigo em toda parte? Ainda confias em palavras, ainda te iludes com a eficácia da ação, quando aquelas, vê bem se não é assim, as mais das vezes não te satisfazem e esta é apenas uma dissociação de ti próprio! Sê sincero contigo mesmo; dize-me: que é a tua libertação nos instantes de apaziguamento, depois de uma confissão, durante uma leitura ou uma prece, que é a tua libertação nesses momentos, senão um ilusório adormecimento dessa outra realidade? Repara como essa onda furiosa de motivos que reprimes dentro de ti fica num meio silêncio, sob uma tênue camada sem consciência, para irromper depois, independente da tua vontade, inesperadamente e tão lúcida, que só te resta reconhecê-los como teus e aceitar a própria humilhação. Oh, essa desabitada tristeza que não é perspectiva de nada, de nada, tu não o ignoras, mas a que és coagido a ceder… Para que? Para te desembaraçares dela? De início, tu assim o acreditas… E sabes porquê? Porque queres, porque precisas iludir-te. Mas no íntimo bem sabes que é apenas uma trégua. Pois não ignoras que dentro deste momento em que agora te moves e que instintivamente forças por prolongar, já se estão elaborando os novos motivos que depois – tu sabes muito bem o que quer dizer este depois! – te atirarão, sem conseguir suster o seu ímpeto, nessas bruscas depressões na aparência inexplicáveis! Porque? Porque? indagas tu – tu que ainda há pouco, te sentias uma alegria quase ridícula? Mas não respondes, ficas sempre em meio do caminho. É o teu mal, é o teu maior mal. Perdes-te em observações e teorias… Oh, como és ridículo! Lembras-te: É estranho como o nosso corpo reage e quer reagir sempre! Deitamo-nos trágicos e despertamos líricos. Que capacidade de renovação, que singular energia a do nosso corpo! É ele, não há dúvida, que vale pela nossa unidade… etc.

            Ou então, se é muito grande o teu abatimento, descambas para a literatura:

Oh, a paisagem exterior!

Se ela pudesse mergulhar bem fundo

na agitação da paisagem interior,

para esquecer, para esquecer...

        Como se isso fosse uma solução! “Afinal, sou uma alma que se procura” consolas-te tu, em outros momentos. Como és fácil de contentar! Como te sabes iludir! Porque receias seres tu, não seres senão tu próprio, uma vez que mais nada te convence? Porque não te encaras frente a frente, porque, confessando-te aos outros, nunca te confessas a ti próprio? Tens medo das consequências? Mas se tens motivos para te revoltar e não o fazes – não sentes que és covarde e não te odeias?”

         Cesário ergueu-se de um salto da cama. “Que significa isto, meu Deus? Que estava pensando eu? De onde me vieram estas ideias? Os outros também pensarão assim? Os outros também agirão desta dolorosa maneira os mesmos problemas? Mas que problemas?”

      Tinha  a  sensação  de  que se afogava. Retirou a voltinha, desabotoou a batina no peito e aproximou-se da janela, aspirando profundamente o ar fresco da manhã suja de cinza.

          “Mas que cinza terrível! Será que eu adormeci e sonhei? Não, não estava sonhando; lembro-me de que, enquanto se passou aquilo, eu conservava uma consciência longínqua de realidade…”

           E passando a mão pelos cabelos revoltos:

         “Não quero me lembrar do que se passou! Nunca hei de recordar este momento! Não pensarei mais nisso. Vou tomar um banho, talvez a água fria me ponha num estado de espírito mais lúcido, eu estava sonhando, não é possível, eu estava sonhando!”

         Abriu  a  maleta  que havia, ao entrar, colocado sobre a mesa, e, tirando uma toalha, dirigiu-se para o andar térreo.

 

 

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