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Estava na Estação conversando a um canto com o pai, e dali observava o movimento na rua com o ar de pessoa que espera com impaciência alguém, quando um automóvel parou junto à calçada.

       Talvez   fossem   eles,   pensou   Cesário,   esforçando-se   por distinguir, entre o burburinho e a agitação do lugar, os colegas que saltavam.

       Sobraçando embrulhos e maletas, quatro seminaristas vinham ao seu encontro.

           Não eram eles. Mas não haviam de demorar... conjecturou.

        – Então,  Cesário, já sabe ?  Os "nossos"  Mário Dias  e Gabriel ficam-se, veja só, hein! –  falou em voz alta, adiantando-se do grupo e dirigindo-se a Cesário, os braços abertos para um abraço, um rapaz aloirado e esguio, fazendo-se notar ao mesmo tempo pelo esmero com que vestia e pelo desembaraço nervoso de seus movimentos; o rosto claro, quase imberbe, mas muito raspado, dava-lhe uma suavidade feminina às feições; desprendia-se de todo ele um cheiro forte de cosméticos.

       –  Como  vai,  Carlos  Alberto?  Mas que me diz você ?, ainda domingo passado estive com eles e não me disseram nada!

        –  Pois  é,  meu caro, mas  ficam  para as "ordens", respondeu o outro, envolvendo o colega num abraço apertado.

          – Será possível! murmurou Cesário encarando desapontado Carlos Alberto.

        Os  outros  seminaristas – três novatos que iam começar naquele ano a Filosofia, antigos colegas de Cesário no Seminário Menor – haviam se aproximado e, meio constrangidos, cumprimentavam o senhor.

    – Ah, meu pai!  apressou-se  Cesário,  saindo de  seu desapontamento.

        Houve uma confusão de nomes declarados confusamente, "muito prazer", e apertos de mão.

      Entretanto, Cesário tomara um ar pensativo, que não conseguia disfarçar; assim que terminaram os cumprimentos, o pai quis saber de que se tratava.

        – Nada... Uns  colegas  que não vão  hoje conosco... Mas não há nada, não tem importância nenhuma, eu é que não contava com isso e, como somos muito amigos, fiquei surpreso, resumiu tentando disfarçar a impressão que a notícia acabava de lhe despertar.

      Mas Carlos Alberto, que percebera tudo, tomou-lhe a palavra e, falando sempre alto demais, muito cheio de gestos, para escândalo das pessoas que passavam, voltando-se curiosas, explicava com detalhes:

       – Acho esquisito  Cesário  não  estar a par disso, afinal são tão amigos dele! Eu já o sabia desde ontem. Aliás, durante as férias eu procuro ir toda semana ao Palácio. É bem verdade que nem sempre se encontra o sr. arcebispo, mas que fazer ? a visita está feita. Um seminarista "maior" (voltou-se com um sorriso amável para o pai de colega) não acha o senhor ? um quase padre tem obrigação, mas que social, moral, não é ?

de estar em contato permanente com o seu prelado, porque...

         Uma cascata de palavras, o Carlos Alberto. Cesário já o conhecia: se o deixassem falar não se calava mais.

         – Sim, sim, interrompeu-o, um tanto irritado com aquele palavrório (na realidade estava irritado com os amigos ausentes), do qual não concluía nada. Mas afinal, você sabe porque ficaram Gabriel e Mário ?

          Os outros colegas perceberam-lhe a impaciência e sorriram.

       – Mas eu já não disse, meu caro, este Cesário (voltou-se para o senhor com o mesmo sorriso de há pouco) este Cesário vive no mundo da lua... eu não disse que eles ficaram para a recepção das "ordens" ?

         – Mas isso é outra novidade, ajuntou Cesário. As "ordens" não são sempre dadas no Seminário ? Que quer dizer essa inovação ? não compreendo o motivo!

         – Ah, meu caro, você agora chegou onde eu queria.  E baixando o tom, dirigindo-se discretamente ao colega:

          – Isto para mim é "arranjo" deles, pode estar certo. Aquele Gabriel! Eu estive ontem com ele e me garantiu que não, que fora o próprio arcebispo quem se oferecera para conferir-lhe as "ordens"; desculpou-se muito... Quando uma pessoa se desculpa muito, meu caro... Não quero fazer mal juízo, Deus me livre, mas nessa é que eu não vou. Então o sr. arcebispo... Foram eles que pediram. E outra coisa: com essa  história de "diaconato", você vai ver, só aparecem no Seminário depois da Semana Santa.

           – É ?! exclamou ingenuamente admirado Cesário.

           – Eu é que imagino... Aquele Gabriel é um sabido!

          Só então Cesário percebeu o absurdo da pergunta e o exagero da afirmação de Carlos Alberto. Pensou mesmo em justificar os dois amigos. Noutra circunstância tinha certeza de que o faria. Não o fez, naquele momento. Como se sentia logrado por eles e quase que compartilhava agora da opinião do outro. Interiormente compartilhava agora da opinião do outro. Interiormente compartilhava. Ora, eles não lhe terem compartilhado nada! Que indelicadeza, sim senhor. Não esperava um gesto tão grosseiro de Gabriel nem de Mário... Só queria ver que desculpas lhe dariam quando chegassem ao Seminário!

          Os seminaristas que haviam chegado com Carlos Alberto discutiam a compra das passagens. Um queria adquiri-las logo, ficar de uma vez tranquilo com aquilo, outro achava que havia ainda muito tempo, que não precisava ninguém se afobar. Carlos Alberto dizia que se encarregaria de comprar todas. E voltando-se para Cesário:

          – Você já comprou a sua ?

          E como o colega respondesse afirmativamente:

       – Então vamos comprar as nossas também, não é gente ? disse entusiasmando-se de súbito.

          Os colegas agora queriam.

          – Deem-me o dinheiro! Ou por outra, já não, no guichê. Mas onde é o guichê ? falava Carlos Alberto, abanando-se com o chapéu, num gesto que podia ser natural, mas nele dava a impressão de estudado.

      Começavam  a  aparecer  novos  seminaristas, acompanhados alguns pela caravana de parentes. A roda aumentava. Abraços, exclamações, notícias, as conversas se multiplicavam; aqui e ali pela gare,foram-se formando grupos de duas, três, quatro batinas pretas...

      Carlos  Alberto, fazendo-se  sempre notar, saiu com uma turma grande de colegas para a compra das passagens.

       Cesário aproveitou a confusão para deixar o grupo, afastando-se com o pai.

          – Vamos ao bar, não é melhor ?

      Preocupado com os amigos, caminhava ao lado do senhor alto, respondendo vagamente às perguntas que este lhe ia fazendo sobre os colegas.

        Não era possível! Naquela brusca decisão tinha que se esconder qualquer coisa. Era tão amigo deles e não lhe haverem dito nada. Era estranho! Não, francamente, ele não compreendia! Devia existir qualquer outro motivo... E, em voz alta, para o pai:

           – São muitos amigos meus, sabe ?

       –  Os  seminaristas  de  quem vocês falavam, não é ? Cesário percebeu que aquele "são muitos amigos meus" havia sido dirigido mais a si próprio do que ao seu pai e, sorrindo interiormente, apressou-se em corrigir:

        – Sim, aqueles de quem falávamos. O tal Gabriel e Mário. Mário Dias...

           No bar todas as mesas estavam ocupadas.

         – Se eu houvesse sabido antes dessa história toda teria passado pelo Palácio. Chegamos tão cedo à estação. Agora não dá mais tempo...

       – Talvez  ainda  apareçam  à  hora do embarque, quem sabe! comentou o pai.

     – Como?  perguntou  Cesário  que,  absorvido  em  seus pensamentos, não lhe ouvira as palavras.

      – Digo que talvez os seus amigos ainda apareçam à hora do embarque...

           Atravessavam nesse momento a rua.

       – Oh,  olhe  lá  o  Gabriel! exclamou Cesário, num ímpeto de entusiasmo mal contido. Olhe ele, descendo do ônibus !

         Um caminhão parou entre eles, a seguir um carro, outro. Por um momento o seminarista desapareceu-lhes das vistas.

       Era  Gabriel,  não  havia  dúvida, pensava Cesário enquanto esperava que o trânsito se descongestionasse para atravessar. O amigo não trazia nem embrulho nem mala alguma – por certo que não embarcaria! Não fazia mal, tinha-o ali...

         Passaram os carros. Gabriel descobrira-o também e vinha agora em direção deles, acenando para Cesário. Era um rapaz de estatura normal, moreno e com uma barba cerrada, que lhe dava um ar severo ao rosto comprido, de traços bem feitos. Naquele momento vestia capa, em vez de capote, e Cesário notou-lhe uma brochura amarela debaixo do braço.

            – Oh, Cesário!

            Abraçaram-se.

            – Mas então ? foi perguntando Cesário com impaciência.

         – Iam  a algum lugar ? Pelo que vejo... Boa tarde, disse Gabriel, estendendo a mão ao pai do amigo.

           – No trem  podemos conversar mais à vontade, continuou Cesário a expandir-se. Vamos! Mas afinal que história é essa de "ordens" ? Carlos Alberto já me contou. Sempre ficam ?

          – Ah, você já sabe? Eu não lhe havia dito nada porque eu próprio só tive conhecimento ontem. Havia ido ao Palácio despedir-me do sr. arcebispo, encontrei lá o Mário, e estávamos a conversar com dom Moura, quando ele nos perguntou se queríamos receber o "diaconato" das mãos dele. Eu fiquei calado. Mário pôs-se a rir, a dizer que a ideia não era má, e o sr. arcebispo – você sabe como  ele é  na  intimidade – levantou-se: "Muito bem! então os senhores ficam! Estão satisfeitos, hein ?"

           – Quer dizer que partiu tudo dele ?

        – Foi. Dom Moura parece que quer nos conferir o "diaconato" na capela do Seminário Menor, para incentivar os seminaristas "menores" com o espetáculo da cerimônia – foi o que eu conclui, sabe ?

           – É possível, concordou Cesário. Mas escuta: e Mário ?

          – Ah, Mário está contente. Ainda mais que estava com vontade de pedir a dom Moura para ficar algumas semanas em casa por causa do tratamento – Ele lhe havia dito, não ? 

           – Disse.

        – Pois é, veio a calhar. Ele embarcou hoje cedo para Petrópolis, descobriu lá uns parentes que não via não sei quantos anos e foi acompanhar a mãe... Por falar nele: mandou um abraço para você, ouviu ?

         – Está bem. Obrigado! murmurou Cesário. E já sabem o dia certo da recepção do "diaconato" ?

          – Talvez na festividade de São José, a 19 de março... Dia também do patrono do Seminário Menor, lembra-se ?

        – Então vocês só aparecem em São Paulo lá para o fim do mês, não ?

           – Por aí...

     – Você tem um ar preocupado, Gabriel! Será a recepção do "diaconato" que o põe assim ?

           O amigo sorriu. E depois ?:

           Como  o  tempo  passa, hein!  Ainda há tão poucos anos era eu um seminarista “menor”, sem preocupações pessoais, tendo apenas que obedecer a um regulamento onde tudo está previsto, e hoje um quase-padre! Interessante, quando a gente ainda está nos primeiros anos do curso tem a ilusão de que à medida que se forem recebendo as “ordens”, tudo vai mudar de uma hora para a outra, por encanto, por milagre… E a verdade é que somos sempre o mesmo. Não sei, tudo isso é muito grave, muito sério… Você já pensou nisso, Cesário?

          Eu  ainda  não.  Essas  coisas  são privilégio exclusivo do meu amigo Gabriel.

      Que  queria  dizer aquilo?  O  colega  encarou-o  fixamente, surpreso. E foi só então que pressentiu o que devia estar se passando no íntimo do amigo. Sim, estava ali o Cesário todo, o Cesário que ele tão bem conhecia! Quis dizer qualquer coisa para animá-lo, pensou mesmo em prometer-lhe uma carta naquelas semanas de ausência, mas sentiu-se tão perto do sentimento do amigo que compreendeu que qualquer palavra seria inútil. E preferiu seguir calado a seu lado.

 

 

IV

 

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